NAVEGAR É PRECISO por Luísa Lobão Moniz

 

Quando a coragem tem um rosto, tem uma intenção precisa e é alimentada pelo que a Humanidade tem de bom, sim, estão enganados aqueles que dizem por palavras e por imagens impublicáveis, não pela censura, mas pelo respeito da vida humana, sim, estão enganados, porque a coragem é um bem da Humanidade.

Precisaremos ver crianças a morrer de fome nos colos de suas mães? Não saberemos sentir o que isso representa para a mãe, filho, restante família e meros desconhecidos? Sim, também percebo que uma imagem vale mais do que mil palavras. Quantas palavras contra a guerra da Ucrânia e em Gaza já foram proferidas? Quantas imagens de destruição já foram vistas?

Quantas pessoas não quebraram barreiras para dizer “é preciso dar um jeito”.

Com a coragem, a bondade e a solidariedade passaram da indignação à ação.

Navegar é preciso.

E navegaram em águas internacionais e quase chegaram a Gaza, foram ilegalmente detidos. Estes corajosos e estas corajosas foram talvez românticos. E depois? Tantas ações de solidariedade, tanta luta pela igualdade que mudaram o rumo à História de tantos povos… foram levados pela frase inesquecível de I have a dream.

As ondas do mar enrolavam-se ao som de

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for


Não, não são ingénuos, sabiam que podiam ser presos pelos Israelitas.

Em Portugal parece que se esqueceram das atrocidades cometidas pelas tropas portuguesas porque a ditadura assim o exigia, era preciso manter o Império. As imagens, essas, estão fixadas nas fotografias que alguns militares tiraram, não foram vistas, não foram comentadas. A guerra é para matar e o mesmo se passou com os militares de Angola, Moçambique, Guiné…

Tendo sido reconhecido o direito à autodeterminação e posteriormente à Independência, não mais se ouviu “Angola é nossa”, passou a ouvir-se “os soldados são filhos do Povo”, “Nem mais um soldado para as colónias”.

Alguém passou da indignação à ação…

Não me refiro, como é evidente aos motivos destas guerras, refiro-me à violência que a guerra despoleta e ao sentimento de solidariedade, como contraponto, à violência desmedida.

Não são armas meus senhores, não rosas, são alimentos e medicamentos…é dizer que é preciso um corredor humanitário…

Mas o corredor foi a prisão daqueles que foram corajosos e que incomodaram muita gente, dirigentes políticos e muitos anónimos.

Não me obriguem a vir para a rua gritar.

A flotilha humanitária não tinha armas nem discursos de ódio, mas sim a defesa dos Direitos Humanos.

A lei internacional não é uma lista de intenções, é um compromisso para que ninguém seja ferido na sua dignidade de Ser Humano, esse compromisso foi ilegalmente quebrado.

O mundo acordou com esta ação humanitária? Não sabemos, mas sabemos como a direita se regozija com este desfecho, prisão para os corajosos da flotilha.

Como se aborda este acontecimento com uma expressão de sorriso, que tudo vai correr bem. Era imposto perguntar, vai correr bem aonde, em Gaza?

Porque ficaram contentes os dirigentes com o desfecho desta ação humanitária? Porque estão atrapalhados em explicar a passagem de aviões americanos, com material bélico com destino a Israel, que se foram abastecer na Base das Lages, nos Açores?

Não é a flotilha que está em causa nem os portugueses que tiveram a coragem de nela embarcar, mas sim como está a ser dirigido o mundo e porquê. Porque a violência está a ser cada vez mais visível , porque os tiques neonazis são cada vez mais evidentes?

Porque o ódio é mais visível do que a solidariedade?

Porque não são visíveis os voluntários que tentam ajudar as populações vítimas destas guerras, porque não é visível o papel dos médicos sem fronteiras, porque as notícias tratam os mortos e os feridos por números?

Será que o que vemos está fora de nós como se o sofrimento humano fosse algo que não nos diz respeito?

São corajosos sim, a coragem lida com a força interior contra medos, com a reflexão sobre o certo e o errado, a justiça e o bem, enquanto a violência é um ato de força contra a liberdade, a dignidade humana.

De que lado da barricada é que estamos?

Não seremos capazes de sentir as injustiças do nosso mundo, que afinal é o meu e o teu mundo?

Não é fácil a vida porque a sociedade está organizada para desvalorizar a coragem, porque ela incomoda.

Que força é essa amigo

 que te põe de bem com outros

 e de mal contigo?

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